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quinta-feira, 31 de março de 2011

Get Back Sessions: Uma música animal!

Como dissemos no primeiro post desta série, em janeiro de 1969, os Beatles tinham um projeto de volta às origens, tocando sem trucagens para um possível documentário e shows ao vivo. Foi aí que começou a maratona de ensaios, jams e gravações que se tornaram referência para confecção de inúmeros bootlegs dos Beatles.

The House of Rising Sun é uma canção folclórica americana que está imersa em controvérsias. Não se sabe ao certo quem a compôs ou quando isso aconteceu. As informações sobre sua origem são meras conjecturas. Uma das primeiras versões da música teria sido gravada em 1928 por Alger "Texas" Alexander com o título The Risin' Sun. A letra era diferente mas tinha uma levada que lembra em muito aquela que o público conhece. Graças ao folclorista e etnomusicologista americano Alan Lomax a música não caiu na obscuridade. A versão original dita "oficial" teria sido gravada em 1933 por Clarence Ashley e Gwen Foster. Depois teria sido interptretada por nomes como os cantores Folk Woody Guthrie, Roy Acuff, Josh White, Georgia Turner, o lendário Bluesman Leadbelly e o cantor de baladas Frankie Lane. Joan Baez, uma das mais proeminentes vozes do Folk americano gravou uma versão em seu álbum de estréia em 1960. Um ano depois, foi a vez de Bob Dylan gravá-la, sendo uma das versões mais conhecidas atualmente. Em 1962, veio a versão de Nina Simone, que foi a base para o grande hit dos Animals em 1964, embora Alan Price, o tecladista da banda tenha apregoado que a canção fosse do folclore inglês do século XVI. O cantor e membro fundador do Aphrodite's Child (ver biografia aqui), Demis Roussos a teria cantado em shows quando morava na Grécia. Depois do fim de sua banda Aphrodite's Child ele acabou gravando-a junto com o colega Vangelis. A letra da música fala sobre uma casa em New Orleans e da vida dura dos que nela moram.

Assim, chegamos às Get Back Sessions e os Beatles lembraram da música. Eles a tocaram no dia 9 de janeiro de 1969, após repassar Across the Universe. Cá prá nós, a versão deles é horrível. Tentaram emular a versão de Bob Dylan mas mais parece uma farra do que propriamente uma canção séria. Eles não tiveram muita vontade de trabalhá-la com mais afinco, para que talvez viesse a figurar no álbum. Não é uma das minhas favoritas dessa série de gravações dos Fab 4.

No início dos anos 70, a banda Frijid Pink gravou sua versão em seu primeiro álbum (na Internet tem gente que vende a ideia de que seja o Pink Floyd). Na segunda metade dos anos 70, a versão mais conhecida foi a interpretada pelo grupo Santa Esmeralda em rítmo de Disco Music, sendo um hit naquela década.

Ficha técnica:

John: vocal e guitarra rítmica
Paul: vocal e baixo
George: guitarra líder
Ringo: bateria

Fonte:
Wikipedia (em inglês)
http://www.beatlesbible.com/1969/01/09/get-back-let-it-be-sessions-day-six/

The Animals: sua versão de The House of Rising Sun
foi um dos maiores hits da banda

quinta-feira, 24 de março de 2011

O início e o fim

Parece até meio bobo o título deste post mas ele tem um certo fundamento (considerando que queirmei neurônios durante horas pensando num nome). Quando John começou a aprender a tocar, sua mãe, Julia Stanley Lennon foi quem lhe passou as primeiras noções. O problema é que John havia aprendido a tocar violão a partir de acordes de banjo e assim foi durante um bom tempo, naqueles primórdios dos Quarrymen, a primeira banda de John. Caso queira acompanhar o início da biografia que estou escrevendo sobre os Beatles, veja aqui. Julia ensinou John a tocar algumas coisas do Rock como Ain't That a Shame de Fats Domino e tradicionais como Maggie Mae, uma canção inglesa que acredita-se ter tido origem no início do XIX. Era um hino informal da cidade de Liverpool e fazia parte do repertório recorrente dos Quarrymen pela facilidade que John tinha em tocá-la.

Em janeiro de 1969, durante as Get Back Sessions, quando os Beatles estavam preparando material para um projeto que visava uma volta às origens, nada mais justo que incluir no set list uma das músicas que John tocava na fase pré-histórica da banda, embora usassem apenas um trecho da letra. Com o arquivamento do projeto, poucas dessas músicas foram aproveitadas para o derradeiro disco dos Beatles, Let It Be (1970). A versão de Maggie Mae que conhecemos do disco tem apenas 41 segundos e não há sequer um final, apesar da produção do competente Phil Spector. Há uma versão um pouco maior dela com 56 segundos.  A letra conta a história de uma prostituta muito ladina que surrupiou um marinheiro e acabou sendo julgada por isso. A música é creditada aos quatro, sendo uma das únicas da discografia dos Beatles nessa condição [Flying do álbum Magical Mystery Tour (1967) é a outra]. Vejaz aqui a letra inteira.

Os Beatles não foram os primeiros a gravar a canção. A banda The Vipers Skiffle Group (de onde saíram Tony Meehan e Jet Harris para formar The Shadows - veja biografia aqui) chegou a gravá-la no final dos anos 50. Ela também foi utilizada, em 1964, num showcase teatral inglês homônimo feito Lionel Bart, criador do musical Oliver. Nos anos 70, o cantor inglês Rod Stewart (ex-Faces) gravou uma música chamada Maggie May que nada tem a ver com aquela canção tradicional. Ela foi lembrada, inclusive no  filme Nowhere Boy (2010), que fala sobre a juventude de John.

Quando o álbum Let It Be Naked (2003), com músicas do LP original sem a produção de Phil Spector, foi lançado, Maggie Mae ficou de fora.

Ficha técnica:

John: vocal principal, violão
Paul: backing vocals, harmonias
George: guitarra líder
Ringo: bateria

Fonte:

Wikipedia (em inglês)
http://www.beatlesbible.com/songs/maggie-mae/

Cena do filme Nowhere Boy que remonta um show dos Quarrymen de 1957

quinta-feira, 17 de março de 2011

Grilos e Besouros - parte 4

Os Crickets e os Beatles tem muitas coisas em comum, a começar pelo nome, uma referência a insetos. A banda americana optou pelo nome para fugir do lugar-comum, pois as bandas ou grupos vocais eram sempre batizados com nomes de pássaros. Já no caso dos Beatles, em 1960, o então baixista da banda, Stu fez uma brincadeira num pedaço de papel usando o nome Crickets [grilos], pensou em insetos e aí veio Beetles [besouros], que John fez questão de emendar para Beatles. Hora dessas eu conto essa história.

Crying, Waiting Hoping foi composta e gravada por Buddy sem os Crickets em 1958, quando fez suas derradeiras sessões de gravação, tendo sido lançada após sua morte como lado B do single Peggy Sue Got Married (1959). Nessa sessão, participou o grupo vocal Ray Charles Singers.

A música era uma das mais tocadas pelas bandas do emergente Mersey Beat e os Beatles não ficaram atrás. Ela aparece em pelo menos três ocasiões na história da banda: fez parte do set list para o teste da Decca Records, ainda contando com Pete Best na bateria, onde os Beatles acabaram sendo recusados. Apareceu em vários programas que os Fab 4 fizeram para a BBC de Londres (1963-1965), já com Ringo, tendo sido lançada no álbum Live at BBC (1994) e foi lembrada depois em 1969 durante as Get Back Sessions (foi gravada provavelmente em 29 de janeiro daquele ano). Nesse cover (especialmente a versão da BBC), George mostra sua versatilidade como guitarrista solista, pois o solo ficou exatamente igual à versão original (feito pelo guitarrista de estúdio Don Arnone), além de fazer o vocal principal.

A letra fala do rapaz que levou um fora da amada mas se agarra à esperança de reconquistá-la. Além dos Beatles, ela foi interpretada por Marshal Crenshaw no filme La Bamba (1987) e em sua trilha sonora. Crenshaw fez o papel de Buddy naquele filme. Outra versão é a interpretada pela cantora e compositora Cat People.

Ficha técnica:

George: vocal principal, guitarra líder
John: backing vocal, guitarra rítmica
Paul: baixo, backing vocal
Ringo : bateria (BBC e Get Back)
Pete Best: bateria (Decca Tapes)

Fontes:
Wikipedia (em inglês)
http://www.beatlesbible.com/songs/crying-waiting-hoping/
http://buddyholly.pagesperso-orange.fr/homepage.htm

Decca Tapes: Pete Best ainda era baterista dos Beatles

Grilos e Besouros - parte 3

Embora Buddy Holly tenha crescido e vivido no meio Country, sua versatilidade e ecletismo eram bastante evidentes. Ele podia ir de uma conotação mais voltada ao estilo do Grand Ole Opry (a versão primitiva de That'll Be The Day), pelo Rockabilly (Rock Around Ollie Vee e Oh Boy) e até Rhythm & Blues (Not Fade Away) e baladas orquestradas (It Doesn't Matter Anymore).

Neste post vamos fazer um crossover entre essa série específica sobre covers de Buddy Holly e a série Get Back Sessions falando de Not Fade Away, canção escrita em 1957 por Buddy usando seu nome de batismo Charles Hardin, dando o crédito de co-autor a Norman Petty, o produtor dos Crickets por mera formalidade. Holly era fascinado pelo estilo de Bo Diddley, uma mistura entre R & B e rítmo africano e construiu a música com essa estrutura. Em suas últimas sessões em estúdio, Buddy chegou a gravar um cover da principal canção de Ellas McDaniel (outro nome usado por Bo Diddley) chamada Bo Diddley, que foi lançado num álbum póstumo. A canção foi lançada como lado B do single Oh Boy e fez parte do primeiro álbum The Chirpin' Crickets. A letra fala de uma proposta de amor eterno que não vai desaparecer

Como grandes admiradores dos Crickets é de se supor que essa música fizesse parte do repertório dos Beatles, embora não existam registros dela nessa fase dos Fab 4. Quando eles começaram as famigeradas Get Back Sessions, Not fade Away foi lembrada e eles chegaram a ensaiá-la no dia 29 de janeiro de 1969, misturando com a já citada Bo Diddley num Rock do Beatle Doido.

Uma das versões mais conhecidas da canção é a que foi gravada pelos Rolling Stones em seu álbum de estréia (versão americana) em 1964. Além dessa podemos citar os covers de Bob Fuller Four, Rush, Status Quo, Grateful Dead, Bruce Springsteen & E-Street Band e Supremes, que a gravaram em 1964 mas só foi lançada em 2008 (!!).

Ficha técnica:

John: vocal principal, guitarra rítmica
Paul: baixo
George: guitarra líder
Ringo: bateria
Billy Preston: teclados

Fontes:
Wikipedia (em inglês)
http://www.beatlesbible.com/features/get-back-let-it-be-sessions-complete-song-list/

Buddy Holly: o Rock and Roll nunca vai desaparecer

quinta-feira, 10 de março de 2011

Get Back Sessions: começa aqui

Vamos começar neste post uma série que vai falar sobre uma das maiores fontes de bootlegs dos Beatles, as Get Back Sessions.

Tudo começou em janeiro de 1969 quando Paul, então alçado à condição de líder da banda propôs um projeto que levasse os Beatles às suas origens mais remotas, com os quatro tocando seus instrumentos e sem as trucagens (overdubs, orquestrações, etc.) que revolucionaram o trabalho da banda. Tudo seria gravado para um disco que teria o sugestivo nome de Get Back, que resultaria num filme da banda e numa possível volta dos Beatles às turnês, que eles pararam de fazer em 1966. Começava a "interminável" maratona de ensaios e jam sessions que forneceria inúmeros discos pirata da banda.

Para "inaugurar" a série, falemos de Commonwealth, uma jam improvisada creditada a Lennon & McCartney que nunca foi gravada em discos oficiais dos Beatles, pois Paul não gostou do resultado final. A música acabou dando origem ao clássico beatleniano Get Back. Consta que teria sido gravada em 9 de janeiro de 1969
Na letra, mais falada do que cantada, John e Paul criticam veemente a política britânica referente à imigração em voga na época. [Algum leitor sabe de algo mais? Pode se pronunciar nos comentários que dou o devido crédito].

Ficha técnica:

Paul: vocal principal, baixo
John: backing vocal, guitarra rítmica
George: guitarra líder
Ringo: bateria

Fonte:
Wikipedia (em inglês)
http://www.beatlesbible.com/features/get-back-let-it-be-sessions-complete-song-list/


John e Paul: "metendo o pau" na política
de imigração da Comunidade Britãnica


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Beatles e os Carteiros - finale

Este é o noso segundo e último post falando sobre canções interpretadas pelos Beatles tendo os Carteiros como referência. No anterior, falamos de Please Mr. Postman. Desta feita, vamos falar de Mailman [outra forma como os carteiros são chamados lá nos EUA] Bring me no More Blues.

A canção foi composta em 1957 por Ruth Roberts, Bill Katz e Stanley Clayton e gravada originalmente por Buddy Holly como lado B de Words of Love. Como todo mundo sabe, os Fab 4 eram totalmente loucos por Buddy Holly e quando tiveram o single nas mãos, com certeza aprenderam as músicas e já saíram tocando. O lado A do single com certeza fez parte do repertório e acabou sendo gravado no álbum Beatles For Sale (1964) numa versão por vezes considerada melhor que a original.

Em 1969, quando eles começaram a desenvolver o projeto Get Back, "desenterraram" várias músicas dos seus tempos de clubes (Cavern Club, Star Club, Jacaranda, Casbah) para ensaios e jams aleatórios. Foi aí que Mailman voltou à evidência, tendo sido gravada em 25 de janeiro de 1969. A versão dos Beatles é um pouco mais lenta se comparada à original de Holly. Após o engavetamento do projeto, a canção ficou melhor conhecida dos beatlefans a partir de bootlegs. Isso até 1997 quando foi escolhida para fazer parte do álbum Anthology 3, que retrata a história dos Beatles de 1968 até 1970.

Alguém sabe mais alguma coisa sobre a canção? Então envie e nós inseriremos no texto, dando o crédito ao nosso querido leitor.

Ficha técnica:

John: vocal principal, guitarra
Paul: vocal principal, baixo
George: guitarra
Ringo: bateria

Fonte:
http://www.beatlesbible.com/songs/mailman-bring-me-no-more-blues/


A canção foi lançada do álbum Anthology 3 (1997)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Beijando muito

Quem não gosta de dar e receber beijos? Mas aqui não vamos fazer uma dissertação sobre o ósculo e seus efeitos. O tema da vez é o clássico da música latina Besame Mucho, que os Beatles interpretavam em seus shows pré-Parlophone. Para se diferenciarem das demais bandas de Liverpool, os Beatles interpretavam algumas coisas inusitadas como O Sole Mio (canção napolitana que deu origem ao sucesso de Elvis Presley It's Now Or Never) e Besame Mucho. Quando prepararam o set do teste para a Decca Records, os Beatles puseram esta no repertório para tentar causar uma boa impressão quanto ao seu ecletismo, já que possívelmente eles eram uma das únicas bandas jovens a interpretar uma canção tão antiga e fora dos padrões do Rock and Roll. Embora eles tenham sido rejeitados, a boas e velha Besame Mucho continuou firme e forte no repertório. Tanto que fez parte do primeiro teste feito para a EMI pouco antes de fecharem contrato com a Parlophone. Veio o sucesso, eles puseram seu nome na história e no final da década de 60, tentaram uma volta aos bons tempos. E qual canção eles lembraram e até interpretaram? Sim, Besame Mucho! A escolha de Paul como vocalista da música é bem óbvia. Enquanto John tinha um rompante bem rockeiro (vide sua interpretação para covers de Chuck Berry, por exemplo), Paul já fazia as vezes de romântico da turma a la Roy Orbison. Na versão de 1969, que aparece numa das cenas do filme Let It Be, ele canta emulando um daqueles tenores italianos como Luciano Pavarotti. A intro com "cha-cha-boom" também é digna de nota pois, naquela altura do campeonato, ou seja, início dos anos 60, a música latina - em especial, a rumba, o calypso e o cha-cha-cha - fazia a cabeça dos jovens em ambos os lados do Atlântico.

Besame Mucho foi composta em 1940 por uma mocinha mexicana de mal-completados 16 anos chamada Consuelo Velazquez que teve como inspiração Quejas, o la Maja y el Ruiseñor, ária da suite Goyescas do compositor espanhol Enrique Granados. O mais engraçado era que a infante Consuelo nunca havia beijado e o beijo era considerado lascivo e pecaminoso para a sociedade mexicana (e latina como um todo). O tempo passou e Besame Mucho se tornou uma das mais populares canções latinas do século XX e Consuelo uma grande compositora. A primeira versão da canção foi interpretada por Emilio Tuero mas a versão de Lucho Gatica se tornou a mais célebre. O compositor Sunny Skylar escreveu a da música em inglês mantendo o título em espanhol e a cantora americana Josephine Baker foi a primeira a cantá-la nesse idioma. Vieram outras versões, como a da orquestra de Jimmy Dorsey. Nos anos 50, ela foi interpretada por 2 grupos vocais conhecidos, The Flamingos e The Coasters, de onde os Beatles tiraram sua versão.

Enquanto Yesterday é a mais interpretada canção de todos os tempos, Besame Mucho é a canção latina com o maior número de versões, tendo sido gravado por grandes nomes como Frank Sinatra, Dean Martin, Andrea Bocelli, Diana Krall, Trio Los Panchos, Luis Miguel e por aí vai.

Ficha técnica (Decca Tapes e Teste da EMI):

Paul: baixo, vocais principais
John: guitarra rítmica, harmonias (Decca)
George: guitarra líder, harmonias (Decca)
Pete Best: bateria

Ficha técnica (Live at Star-Club e Get Back Sessions)

Paul: baixo, vocais principais
John: guitarra rítmica, harmonias (Star-Club e Get Back)
George: guitarra líder
Ringo: bateria

Consuelo Velasquez
 
The Coasters